Era velho e sempre precisava ser lembrado que não estava encostado na cadeira e que isso aumentava suas dores de coluna. O cabelo grisalho não era só um fato, era também uma dor, uma amargura que se manifestava sempre que se penteava, de manhã. Não queria uma roupa melhor e gostava de cores neutras, que não significavam nada, e quando questionado sobre as coisas que mais gostava, a resposta era sempre esta: "coisas que não significam nada". Todos pensavam que podia ser o medo de encarar a importância, o medo do apego, da desilusão. As coisas que não significavam nada eram sempre vazias mesmo. O que o fazia nunca se lembrar delas por muito tempo. Suas manias eram muito poucas e podia tranqüilamente viver sem elas. Costumava brincar com cães vira-latas desconhecidos, que passavam pela rua e nunca latiam pra ele, o que lhe dava uma estranha sensação de que os cãezinhos gostavam de sua companhia. Mas aquele contato com os cães era estreito, quase inexistente, porque eram cães desconhecidos. Coisas que não significam nada. O café da manhã só precisava de mel, mas podia ser açúcar mesmo. (pra não dizerem que ele exigia demais ou que se importava muito com o mel). Torradinhas, pães, geléias. Nada era necessário se tivesse mel. Não era muito bom com crianças e sempre se esquecia de datas e nomes. Irritava-se com o barulho da cadeira que balançava. Vento demais trazia resfriado, e sol demais manchas na pele. Mas não reclamava de nada. Tudo estava bom porque nenhuma coisa significava nada. Naquela manhã, acordou com uma leve dor no peito. Fazia muito frio e sua cama ficava cada vez menos suportável. Cada dia madrugava mais cedo que ontem. Dormia pensando no que não significava nada, o que não tinha importância e acordava tentando prever o futuro e o futuro pra ele era saber quais seriam as cores dos cachorros que passariam esta tarde, pra ele brincar. A dor era leve, quase confortável e ele decidiu andar pela pracinha que tocava vinis nas manhãs de sexta-feira. "As rosas não falam", sua música favorita, que embalava sua caminhada, ainda que dificultosa, usando muletas, mas viajando naquele barulhinho envolvente dos defeitos do vinil que já estava tão velho! Até mesmo a brisa e o vento não o incomodavam. "Tem horas que parece que o mundo pára e descobrimos que na verdade, nada significava alguma coisa. Só este instante é o que temos", pensou. A rua estava vazia e ele havia perdido de vista os vira-latas com quem queria brincar. Pensou em conversar com os arbustos, plantas e árvores, mas temeu parecer ou sentir-se ridículo. Afinal, as rosas realmente não falam. Na esquina o cinema em que ele nunca sequer entrou, apesar de morar ali a sua vida inteira. Pediu ao pipoqueiro: "pipoquinha doce, por favor, senhor”. Não tinha mel, nem açúcar. Podia ser pipoca doce, mesmo. Sentou-se no banco da praça, enquanto comia quase que eternamente as pipocas. Avistava um céu bonito, mas não sabia muito bem o que ele queria dizer. Tentou se lembrar da semana passada, mas percebeu que sua memória só funcionava mesmo quando se tratava de muito tempo. Observou o relógio como se realmente estivesse vendo as horas. Decidiu sorrir porque sentia que aquilo importava. Sentado ali ele terminou contando pipocas doces. Só depois de dois dias, enfim, perceberam que ele não estava simplesmente sorrindo olhando para o cinema e ouvindo a vitrola da praça que tocava às sextas-feiras. Não, ele não parou no tempo, nem estava enlouquecendo. Simplesmente algo lhe faltava e parecia que era a respiração. É, estas coisas que não significam nada...


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