Transformando o silêncio, que até então é mudo...


01/12/2008


O velho...

Era velho e sempre precisava ser lembrado que não estava encostado na cadeira e que isso aumentava suas dores de coluna. O cabelo grisalho não era só um fato, era também uma dor, uma amargura que se manifestava sempre que se penteava, de manhã. Não queria uma roupa melhor e gostava de cores neutras, que não significavam nada, e quando questionado sobre as coisas que mais gostava, a resposta era sempre esta: "coisas que não significam nada". Todos pensavam que podia ser o medo de encarar a importância, o medo do apego, da desilusão. As coisas que não significavam nada eram sempre vazias mesmo. O que o fazia nunca se lembrar delas por muito tempo. Suas manias eram muito poucas e podia tranqüilamente viver sem elas. Costumava brincar com cães vira-latas desconhecidos, que passavam pela rua e nunca latiam pra ele, o que lhe dava uma estranha sensação de que os cãezinhos gostavam de sua companhia. Mas aquele contato com os cães era estreito, quase inexistente, porque eram cães desconhecidos. Coisas que não significam nada. O café da manhã só precisava de mel, mas podia ser açúcar mesmo. (pra não dizerem que ele exigia demais ou que se importava muito com o mel). Torradinhas, pães, geléias. Nada era necessário se tivesse mel. Não era muito bom com crianças e sempre se esquecia de datas e nomes. Irritava-se com o barulho da cadeira que balançava. Vento demais trazia resfriado, e sol demais manchas na pele. Mas não reclamava de nada. Tudo estava bom porque nenhuma coisa significava nada. Naquela manhã, acordou com uma leve dor no peito. Fazia muito frio e sua cama ficava cada vez menos suportável. Cada dia madrugava mais cedo que ontem. Dormia pensando no que não significava nada, o que não tinha importância e acordava tentando prever o futuro e o futuro pra ele era saber quais seriam as cores dos cachorros que passariam esta tarde, pra ele brincar. A dor era leve, quase confortável e ele decidiu andar pela pracinha que tocava vinis nas manhãs de sexta-feira. "As rosas não falam", sua música favorita, que embalava sua caminhada, ainda que dificultosa, usando muletas, mas viajando naquele barulhinho envolvente dos defeitos do vinil que já estava tão velho! Até mesmo a brisa e o vento não o incomodavam. "Tem horas que parece que o mundo pára e descobrimos que na verdade, nada significava alguma coisa. Só este instante é o que temos", pensou. A rua estava vazia e ele havia perdido de vista os vira-latas com quem queria brincar. Pensou em conversar com os arbustos, plantas e árvores, mas temeu parecer ou sentir-se ridículo. Afinal, as rosas realmente não falam. Na esquina o cinema em que ele nunca sequer entrou, apesar de morar ali a sua vida inteira. Pediu ao pipoqueiro: "pipoquinha doce, por favor, senhor”. Não tinha mel, nem açúcar. Podia ser pipoca doce, mesmo. Sentou-se no banco da praça, enquanto comia quase que eternamente as pipocas. Avistava um céu bonito, mas não sabia muito bem o que ele queria dizer. Tentou se lembrar da semana passada, mas percebeu que sua memória só funcionava mesmo quando se tratava de muito tempo. Observou o relógio como se realmente estivesse vendo as horas. Decidiu sorrir porque sentia que aquilo importava. Sentado ali ele terminou contando pipocas doces. Só depois de dois dias, enfim, perceberam que ele não estava simplesmente sorrindo olhando para o cinema e ouvindo a vitrola da praça que tocava às sextas-feiras. Não, ele não parou no tempo, nem estava enlouquecendo. Simplesmente algo lhe faltava e parecia que era a respiração. É, estas coisas que não significam nada...

Escrito por maisa_revilo às 19h51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Minha loucura...

Me pergunta quem eu sou, mas nem respondo. Devo explicações? Ah, me desculpe se não sei quem você é. Vejo coisas que não se vê. Como eu sei que não se vê? Os normais me dizem... Já me acostumei com esta vida. Me habituei a não contar mais sobre o mundo que vivo. Gosto dos passeios por estes lados, este mundo humano que você chama de verdadeiro. Eu e meu mundo de mentira. Única fonte, único amor. Já me confundo. Não sei mais o que você percebe, o que faz parte do seu mundo. Não sei mais se minhas maravilhas são suas maravilhas, nem se minhas desgraças são suas desgraças. Tenho pena de ti. Não é triste ignorar a ilusão? Não é triste saber que alguém como eu sabe mais que você? Campos cinzentos, mar opaco, açúcar amargo, exagerado. Eu sou feliz com minha estupidez, mas meu dignóstico: loucura. Preciso de um médico. Preciso de paz. É, já não tenho paz de espírito. Saber demais, culpar demais. Um controle remoto que me diga o que fazer. Paralise o retrato, movimente sua mão e não se perca na sua escravidão. Na caixa de correios, na janela da humildade existe um dado, existe um sopro e lá está o seu alento. Não quero me posicionar, não quero enfeitiçar meu medo. Fingir ser normal, fingir saber tudo. Fingir, fingir. O mundo é um abismo de contradições perfeitas. A minha mão o caminho da questão sem solução. E o pássaro fugiu. A covardia foi mais forte, o medo da loucura... ah, por que não? Seu hábito de envelhecer sendo irresponsável e um orgulho como se isso fosse ser jovem pra sempre. Infinito? Encare a ilusão de sua ótica. Desce desta árvore que te faz grande e admite sua pequenez. Não espere por mim. Não espere que eu faça. Não me espere mais. Não espere nada de mim, porque meu diagnóstico: loucura!

Escrito por maisa_revilo às 00h24
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

30/11/2008


Desejos...

E quando a gente vive de utopia. E quando a gente vive de realidades que parecem mentiras. E quando a gente vive de fantasias que parecem reais. É o nosso desejo intenso. É a nossa certeza de que a certeza só serve pra nos mostrar que ela jamais existiu, de fato. E a gente quer muito, muito, muito... e não sabe jamais explicar. E quando a gente vive na espera da beleza. É a intensidade do mundo que nos comove e nos leva por aí. No mundo louco. Na ilusão de ser e na pretensão de estar. É como se a gente pudesse tocar qualquer coisa em qualquer dimensão. E esta coisa fosse das mais impossíveis e abstratas. Queremos uma escultura da liberdade pra sentí-la em nossos dedos, como se fosse a última coisa que a gente quisesse fazer. A última coisa que a gente precisasse tocar, presenciar, dizer com toda convicção que existe. Mas sabemos que é só um desejo. Que não é sério. Não queremos esta realização constrangedora e frustrante de realizar as emoções mais extraordinárias. Somos loucos. Dos loucos que amam, que querem, que lutam, que buscam. A busca eterna e inquietante de concretizar os sonhos pouco reais. Pintar o amor num quadro e poder vê-lo. Não, não queremos de verdade. Somos os desesperados, apaixonados. O desejo está lá e ele é tudo que temos. Se pudessemos abrir a janela e ver a felicidade em pessoa passar, não o faríamos. Mas que prazer inexplicável existe em saber que ela está ali, do lado de fora, tão próxima e que pode ser tocada. Nós, os insensatos, queremos o que não se pode ter. O impossível é tão delicioso e fino! Porque sabemos que é impossível para a razão dos demais, mas aqui, bem aqui dentro do nosso coração, podemos todas as coisas. Inclusive, e por que não? dar forma a música, ao carinho, a alegria, ao alívio, a excitação. E quer saber o mais interessante disso tudo? Ter a mais plena certeza de que tudo que imaginamos é tão fértil, infantil e sem realidade; quanto é olhar para uma maçã e dizer que ela é verdadeira.

Escrito por maisa_revilo às 23h45
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

20/11/2008


Um pedaço do chão que se foi...

E no final de cada resposta, uma pergunta pentelha sempre a perturba. Ela nunca conseguiu ser óbvia, por mais que tivesse a certeza de que isso facilitaria muito seus rompantes, seu humor descontrolado e a paixão. Sabia que o medo era excitante, que as incertezas a tornava misteriosa e brilhante e que era exatamente aí que estava toda genialidade. E este desejo intenso por aquilo que não sabe, mas a completa. A vontade de morrer pra sentir os instantes finais e receber com satisfação e consciência o último suspiro. A intensidade das suas buscas, que no fundo não buscam nada. É uma inconstância. Abstrata. Vazia. Perturbadora. Substância vaga sobre si própria e a falta de necessidade de se explicar. Um desencontro submetido por sua própria circunstância míope. A impotência que a torna capaz de ser o que não é. Se parasse para pensar numa conclusão sobre si própria, diria: apenas um segredo. A escuridão total na imensidão do nada. Ela não quer parar. Ela se perde. Ela se envolve nos teus próprios conflitos como quem sente prazer em viver do improvável. O melhor é o inevitável. Se joga. Se decreta o ser mais interessante e de fato, é! Se conduz ao diabólico, ao inferno interior da desunião das tantas pessoas que vive dentro dela. Não se contenta, nunca... porque qualquer coisa é muito pouco. E neste mundo descolorido, ameaçador e desconsertante... bem ali... ela se sente única e confortável. Porque é assim que tem que ser...

Escrito por maisa_revilo às 18h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

18/10/2008


Perfil de orkut

Liberdade e intensidade.

Livre e intensa.

Não uso vestidos. Batom nem pensar. Salto então... Dinheiro é bom, sim. Ostentação, não. Estrelas não precisam se enfeitar, estão no topo da árvore de natal e no céu, onde mais podem querer chegar? Delicadeza. Jeans, camiseta, tênis, mochila. Sem café, palavra feia. Chá, muito, muito nos dias frios... meus preferidos. Gosto de sentir alívio e de me emocionar. Na maioria dos dias quase não falo e em alguns dias falo demais. Ando olhando pro chão e de mãos no bolso. Aquela parte do alívio me obriga a sair de óculos escuros em dias de sol... o amarelinho me odeia! Não gosto de sorrir se não for de verdade. E verdade pra mim tem um resumo bem belo: alma. Meu coração é bom, tanto que me irrita. E o coração que minha razão criou como ideal de perfeição (odiaria ser perfeita) e que, às vezes, age, é um tanto ruim. Choro facilmente de emoção ou pelo sofrimento dos outros, mas dificilmente consigo chorar por mim. Meu choro é silencioso, como eu. Se for de emoção, não é tímido e não se importa com platéia. Se for pelo sofrimento de alguém ou os meus raros momentos de auto-piedade, jamais aparece na frente dos outros. Na maioria dos dias sou em câmera lenta, como diz um amigo. Mas quando não, sou muito elétrica e ninguém consegue me acompanhar. Fico feliz com música triste. Não gosto de mudar meu cabelo, nem cortar. Adoro cães e grandes, mas atualmente não tenho e eu não sei pq. Impulsiva. Já quis ser um pássaro, um peixe, um golfinho, mas hoje prefiro ser eu mesmo. Tenho sonhos, mas não tão grandes que eu não possa realizá-los em breve. Gosto de anotar, mas sou desorganizada. Sempre saio atrasada. Vai ver é por isso que nunca me arrumo, como diz minha mãe. Tenho mania de ler vários livros de uma vez e a contradição de ouvir mil vezes a mesma música. Tarefas domésticas, só mesmo cozinhar quando dá vontade. Cozinho bem. Gosto de coisas simples, mas sofisticadas. Se pudesse fazer um pedido, pediria pra não ter medo. Eu gosto de ter 25 anos, saber que ano que vem terei 26 e depois, e depois, e depois. Talvez porque eu me sinta vivendo e cada momento é tão bom. Se pudesse dar um conselho: ao menos uma vez na vida, ouça uma música que seja linda e te emocione, esqueça o mundo e se sinta um instrumento musical. Não gosto de dormir, mas isso não quer dizer que eu não durma muito. Prefiro manter só amigos de verdade (alma) no orkut. Admiro pessoas que se parecem um pouco comigo, mas não sei o nome disso. Egoísmo? Pretensão? Ah, admiro tb pessoas que conseguem ler meus textos até o fim.

Livre e intensa.

Escrito por maisa_revilo às 16h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

16/10/2008


A verdade é maior do que podemos suportar. Mas, ei, a verdade existe? Ontem tava contando moedinhas pra comprar jabuticabas. É tempo de jabuticaba e eu gosto delas porque me lembram a infância. Jabuticabas grandiosas, docinhas. Eram tão doces quando eu era menininha. Será que o açúcar descristaliza conforme o tempo ou minha língua perdeu o encanto? As moedinhas faziam barulhinho de jabuticaba, queriam ser jabuticabas. Eu realizei o sonho das moedinhas, que prateadas ficaram quase negras e brilhantes. As moedinhas tão solitárias cansadas daqueles olhares interesseiros ou desprezíveis, preferiam os olhares ingênuos das crianças pequenas ou até das crianças grandes que, cheias de esperanças, lembram de sua infância querendo sentir o gostinho negro de jabuticabas pra reviver ou só mesmo dizer que as jabuticabas perderam o sabor. Perderam só o doce, criancinha. Você não viu, mas ele se perdeu pelo seu tempo. E lá naquela barraquinha da feira, eu me aproximei procurando a jabuticaba, procurando meu doce da infância, procurando o açúcar ingênuo. Ah, eu encontrei. O velhinho dono da barraquinha, preparou num pacotinho tão delicadinho, que não precisava porque eram moedinhas sendo jabuticabas. O velhinho olhava feliz pras moedinhas, talvez porque as suas jabuticabas já tenham se tornado amargas demais; e eu olhava feliz pras jabuticabas, porque elas podiam não ser tão doces e graciosas, mas ainda adoçavam meu dia. Ah, isso sim. E as moedinhas me pediram tanto pra trocarem de lugar com as jabuticabas. Eu voltei pra casa, quase cantando e feliz com aquele gostinho possessivo das jabuticabas que me levaram pra um tempo que eu já não lembrava. Puxando verdades, encobrindo mentiras e pesquisando o óbvio da minha vida. E elas não acabavam jamais. Sapateando pela calçada, me dando conta de que mudei a vida das jabuticabas e das moedinhas, encontrei um problema: não tinha como mastigar e engolir as cascas das jabuticabas. Nem todas as verdades são suportáveis. E eu não podia terminar meu ato tão belo e singelo jogando fora cascas de jabuticabas. Poderia enterrar nas terras que estavam por ali e ninguém veria, não? Mas é que eu não sei me enganar. Decidi então que faria um esforço psicológico, destes que a gente sempre acha que pode recorrer quando tem algum problema, e mastiguei as cascas amargas, portanto, com toda clareza dos conhecimentos gastronômicos que um amargo possa dar. De tão amargo, doeu. De tão amargo, perdeu a pouca doçura que ainda enganava meu instinto infantil. De tão amargo, me fez esquecer completamente o verdadeiro gosto da jabuticaba. De tão amargo, foi verdadeiro. E há verdades que a gente não pode suportar. As minhas jabuticabas terminaram, mas elas sempre terão cascas pra mastigar ou ter que jogar fora, fingir não existir. Não, não posso deixar de provar, jabuticabas são doces e lembram o passado tão doce quanto. E se eu provar todas as vezes o seu gosto amargo, vou perder o gosto por jabuticabas, tão infantil tal gosto. Tão infantilzinho. É melhor trocar moedinhas por jabuticabas e jogar as cascas amargas fora, não é mesmo? Afinal, se enganar é preciso pra manter a ingenuidade e o gostinho pela vida. Porque tem certas verdades que a gente não pode ainda suportar. Enquanto a verdade me veio e é recente, odeio jabuticabas até esquecer que elas doeram de tão amargas e sentir vontade de experimentar de novo o doce das lembranças. Por hora, odeio jabuticabas e moedinhas!

Escrito por maisa_revilo às 21h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

15/10/2008


Sorrir é dizer sim e eu tenho dificuldade de ser positiva. Se te olho com frieza, perdoe, Estranho, este é meu charme e meu delírio. Sorrir é dizer sim e dizer sim não deixa marcas quando não é a alma que diz. E se não é a alma que diz, eu não sei dizer e é aí que descubro que não sei sorrir. Se meu sorriso não vem, se contente com o não da minha face dura, mas sorria - sem dizer sim - pois se te decepciono mesmo sabendo das suas expectativas e sonhos pelo meu sorriso, é porque a sinceridade é maior. Se te contrario, se te pisoteio, se te humilho faltando com meu sim, ao menos você sabe que não vou te enganar. Tenho coragem de te negar. Não me acuse, te peço. Não sei sorrir, dizer sim, aprovar. Aprendi desde muito cedo que o sorriso me entrega, me envergonha. Sinto-me abrindo minha alma, deixando minhas portas escancaradas para o nada, para o que não tem a mínima importância para mim. Sorrir me destrói, cai de mim toda força ou qualquer resistência que ainda me resta. Sorrir me deixa vulnerável. Sinto o pânico e o desespero de guerrilheiros em campo minado, enfrentando o inimigo sem armas, sem estratégias, sem esperanças de paz. Eu não sei sorrir, meu caro Estranho. Porque sorrir é tão íntimo! Não deseje meu sorriso. Se te sorrir, te odeio. Não vou suportar o auto-desencanto de me desmascarar sorrindo. Não vou suportar o auto-desencanto de te aprovar. Não vou te suportar. Quer meu sorriso, mas é um estranho. Somos iguais. Estranho, estranha. É melhor dizer adeus, é melhor que sorrir. É melhor irmos e não sorrir. Não olhe pra trás, não espere que eu desista. Sorria e aceite o caminho inverso ao meu. E agora, adeus!

Escrito por maisa_revilo às 21h55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Eu falo mal do Rio, mas não é a cidade, nem a terra e muito menos o clima. Eu falo mal do Rio por causa do sistema, das favelas, da pobreza, da corrupção escancarada. Eu falo mal do Rio pq lá parece que os esgotos serão sempre entupidos e desconsiderados, como se esta fosse a solução de todo o problema. Eu falo mal do Rio por causa dos cariocas radicais, passionais e doentios... acomodados, pois não? Mas não é regra, cariocas são lindos e especiais pq são do Rio. Eu falo mal do Rio, mas o Rio é tão Rio... O Rio tem uma beleza que ultrapassa os limites do que os olhos comuns possam enxergar, os meus chegam a sentir. O Rio tem um charme, um glamour, um encanto! Andar por aquelas ruas... por aqueles campos... sentir-se revivendo histórias, desprovido de qualquer motivo e tão inerte a si. O Rio, às vezes limita sua beleza pq o que é feio não dá pra desconsiderar, fingir não existir. As ruas acolhedoras de Copacabana, onde vc se sente dentro de um campo pq as árvores se encontram de uma calçada a outra, fazendo sombra pro sol não passar. E aquele barulho de carro, buzinas, pássaros cantando, balanços das águas, o vento soprando com toda a delicadeza. E um cheiro de luxo, de nobreza, de afeição. O Rio tão sofrido por seus próprios limites, que não sabe bem onde se perdeu e quem foi que tomou seu poder. Seu poder de fazer feliz pura e simplesmente. E trouxe um pouco de desespero e angústia. O Rio que não se consegue odiar, por quem o amor parece nascer antes mesmo de saber que tal terra existe. O Rio que quem visita, ama-o eternamente e sofre por não tê-lo por perto, porque acredite, no meio daquela guerra, existe uma calma... uma calma assim, que posso me atrever a chamar de paz!

Escrito por maisa_revilo às 23h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

28/09/2008


Se eu acordar meio pálida, de olhos pequenos, afastando meu cabelo tão liso, tão preto; me despenteie. Me deixe com aspecto de figura viva, amolecendo as motivações de mais um dia.
Se eu acordar meio sozinha e te procurar, com gestos lentos de um corpo sonolento; me ignore. Me deixe cair feito as folhas secas que desmoronam e voam livres, carregando uma breve mentira, uma estúpida ilusão que o vento alimenta, fazendo-as parecer vivas quando andam por aí.
Se eu acordar desajeitada, com muito frio, de mãos suadas e sussurrar meu sono sem perceber sua presença; me deixe quieta. Me deixe na paz do meu silêncio. Quero ouvir apenas minha respiração, dádiva ou desespero de estar viva.
E se eu acordar de olhos borrados, com efeito esfumaçado da maquiagem do dia anterior, entregando então minha embriaguez e meu instinto de auto-destruição; não me condene. Não me olhe como se eu fosse um trapo humano digno de pena e que desejasse, tão somente o tédio da vida. Um drama psicótico.
Se eu acordar chorando, procurando tuas mãos para segurar e te dizendo coisas sem sentido; não se comova. Me deixe atuar. Enquanto invento um personagem, faça seu papel de acreditar. Mentiras, mentiras... nada mais! Como toda nossa vida, como todo este mundo, como nós!
Se eu acordar quase dormindo, com a face anunciada de uma noite que não quer terminar; me cante uma amarga canção. Porque o doce não combina comigo. Me dê um beijo na testa e afaste meu cabelo despenteado com as pontas dos dedos, insinuando carinho. E se eu não me mexer e apenas sorrir, me deixe, Solidão Amada, me deixe continuar a dormir...

Escrito por maisa_revilo às 15h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

23/09/2008


Noites de frio. Elas me fazem feliz. Me preparo pra noite. E agora sou ingênua. Cheia de expectativas, me preparo. O quarto cheira Dove. Me preparo pra noite fria. Juntando os objetos, aqueles para o ritual, lembro uma canção que me faça feliz. Cotidiano. Chico. E vou... banho quente, meias, blusas de frio, chocolate quente, mais cobertor. Se aquecer é tão parecido com se cuidar, se amar. Viro as páginas do livro, uma a uma, sentindo um vento gelado nas mãos, sorrindo... me preparando pra me cobrir de novo. Que encantador este ato! Me preparo pra noite que me cuida. Me prepara. Me aquece. Noite de frio que me deixa ingênua. Noite de frio que me ama.

Escrito por maisa_revilo às 19h10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

21/09/2008


Me disse. Sussurrou no meu ouvido coisas de solidão. Fingi que não era comigo, mas insistiu. Natural que eu negasse, mas foi agressivo. Como se atreveu? Tocou com delicadeza na ferida que já tinha morrido em mim. É, eu pensava, mas tava viva, porém adormecida. Estranho encarar-se. Se fosse uma garota de complexos interiores, tivesse medo de pessoas, certamente não sobreviveria ao auto acerto de contas. Me provocou com táticas excitantes. Quanto ódio meu ego esconde de mim e por mim! Me fez um retrato, preparou comida e eu pensei nos pequenos passados disfarçados. Infância coagida. Séculos de solidão necessária. O sequestro dos sonhos e expectativas de mentira. Nuvens de algodão, algodão doce. Doce, doce. O doce do morango maduro. Cheiro doce.

Escrito por maisa_revilo às 23h06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

19/09/2008


Um labirinto antiquado, necessário. Separando o que vai comigo e o que fica. Tenho me calado. Não consigo falar sobre nada do que tá acontecendo. Não consigo e não quero. Estática como não se deve ser. Pouca Vogal, problema de saúde, mudanças de família, busca constante, livros e mais livros, músicas, agosto, setembro, outubro, novembro e... é, chegando ao fim. Fim que nunca começa, começo que espera o que nunca vem. Me calo. Me calo porque não quero dizer que não sinto saudades de Enghaw. Não quero dizer que tava na hora, nem que foi tarde demais, nem que esperava por isso. Não quero dizer que Pouca Vogal superou minhas expectativas, que foi genial, que não foi tão bom assim. Não quero dizer que nunca fui tão saudável, nem que tomei um pequeno susto. Não quero dizer que os amigos são os melhores, nem que eu gostaria que a lista aumentasse, nem reclamar deles. Não quero dizer que estou feliz, nem que me falta alguma coisa, nem que o futuro é o que mais e menos quero ao mesmo tempo. Não quero dizer que este está sendo o melhor ano de todos, nem que foi um ano indiferente. Não quero dizer que estou completa. Não quero dizer que "On the road" foi cansativo, nem que foi minha leitura mais intrigante. Não quero dizer que Clarice Lispector é minha maior paixão literária, nem que não tenho pretensão de usá-la como referência. Não quero dizer que nunca ouvi tanta música boa como agora, nem que estou cansada das pesquisas tão cheias de dúvidas e peculiaridades. Não quero dizer que ganhei massinha de modelar e que foi meu melhor presente, nem que eu jamais brincaria de construir prédios enormes em miniaturas. Não quero dizer que diminuí os chocolates e a coca-cola, nem que não me esforcei pra isso. Não quero dizer que os exercícios físicos se tornaram obrigatórios, nem que não preciso deles, ou que não quero. Não quero dizer que as emoções estão me tirando as palavras, nem que as emoções estão divididas. Não quero dizer que tenho me emocionado pouco, nem que eu aceitaria ser assim. Não
quero dizer que me defino, que me entendo, que há um sorriso por dia, uma lágrima por história. Não quero questionar, disputar, melhorar, nem provar. Não quero comer muito, nem passar vontade, nem posar pra fotos que os olhos cotidianos olham, mas não fotografam. Não quero me atrever, não quero ironizar, não quero fazer piada. Sei lá, não tem graça. Quero. O que quero? Quero me calar. O silêncio diz tanto e eu quero me calar. Quero me calar pra não dizer, não confundir, não saber. Me calar pra só sentir e me preocupar menos com a falta de conteúdo. Me calar pra ser um pouco menos do que esperam ou não esperam que eu seja. Quero apenas me calar. SIlêncio,. por favor. Façamos silêncio pra que eu me cale e... não quero dizer que preciso me calar, nem que será o melhor pra mim e para todos. Não quero dizer, não quero dizer. Quero me calar. Me calo.

Escrito por maisa_revilo às 16h20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

29/07/2008


Como pode uma pessoa achar tantos caminhos pra errar?
Como pode uma estrada acabar sempre no mesmo lugar?


Eu me iluminei,
eu me machuquei,
eu estendi a mão pra mim

Eu me encontrei,
eu não me aceitei
eu me deixei cair

Eu não posso perder a razão, porque meu coração me faz chorar

Escrito por maisa_revilo às 19h55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

11/07/2008


Reuniões de família são um saco! Principalmente se você é aquela pessoa extrovertida que tira onda de todos, na tentativa de passar o tempo ou simplesmente pra calar a boca daquela tia chata que quer contar todos os programas da semana da Ana Maria Braga. Mas chega um momento que se perde o controle e o assunto passa a ser você.
Pois é. No último domingo, churrascão em casa. Para quem não sabe, moro com meus pais. Coisas da vida... A gente regride. Não moro mais sozinha. E no fim de semana , a família toda, paterna e materna, para acabar com meu humor, resolveu fazer festa: o típico bom motivo pra beber e comer carne.
Reuniões de família me deprime, porque contam sempre com as mesmas histórias. Mas desta vez resolveram me surpreender. Meu pai, que quase nunca fala, nunca havia ouvido as histórias dele ou as mesmas outras sob seu ponto de vista.
Meu pai é assim meio tímido, meio quieto e quando fala só diz coisas relevamtes. É uma pessoa muito correta (até irrita) e parece totalmente indiferente a tudo que acontece em seu redor. E eu estava ali, sentada no chão, de frente pro meu pai que estava no sofá. Eu com os braços cruzados em cima do joelho atenta a tudo o que ele dizia. Homem branco, olhos azuis e profundos que não se fixam muito. Homem de poucos gestos, poucos movimentos. E a história começou de sua infância. Pois bem. O primeiro sonho do meu pai, foi ter um violão. Ele nunca pensou em se formar, não teve tempo. Logo cedo, precisava tratar dos cavalos, bois e vacas dos fazendeiros para os quais seu pai trabalhava. Era aquela a vida que lhe foi apresentada. O que era uma faculdade? Só concluiu o segundo grau quando eu era adolescente.
Quando chegou na minha história, me surpreendi, meu pai repara em mim. Ele se orgulhava dos elogios na escola, especialmente das redações e poesias e se impressionou com uma carta de dia das mães que escrevi aos dez anos. Se lembrou que eu adorava ouvir mil vezes "Hotel Califórnia" - Eagles quando adolescente. E a recordação mais importante de todas, meu brinquedo de estimação. Meu deus, nem eu lembrava disso. Eu destruía todas as bonecas que ganhava e só fui realmente feliz quando meu pai, na tentativa a cada dia mais frustrante de me agradar, chegou em casa acompanhado de um caminhãozinho branco de tampão verde (sim, meu pai é palmeirense). E foi com a recordação do caminhão que eu tanto zelava que fiquei a semana toda, desde as histórias de meu admirado pai.

Escrito por maisa_revilo às 01h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

18/06/2008


Estou numa cidade européia, pequena e aconchegante. Adoro a neve daqui! Faz muito frio e por isso sempre saio pelas ruas de gorro, casaco grande, botas e mãos no bolso. Os carros, os movimentos, as pessoas, o tempo parecem seguir o ritmo das notas delicadas de um piano. Quase tudo é preto e branco, com nuances destas duas cores, às vezes mais claras, em outras mais escuras. Há cor em muito pouco e onde há, a vida é mais objetiva. Meus cabelos são muito pretos e meus olhos muito verdes. Tudo parece fotografia. Não há pressa. É como se a vida se passasse em câmera lenta. Não há tempo, destino, futuro, nem obrigações. Não é comum conversar, além de raro, é quase desnecessário. E observar e contemplar é vital. Não se assuste. É só uma sensação gostosa de ser invisível. A solidão aqui é clara, mas é a mesma que sentes enganado em meio a multidão, aí de onde vens. É tudo tão antigo e tão moderno ao mesmo tempo. Logo ali vendem jornais, mas eles falam só do nada, da alienação e do quanto é bom ser alienado. Ali na esquina tem uma biblioteca e do lado servem chocolate quente. A música está em todo canto, a todo momento, ela não pára... é como o ar do seu mundo. Aqui não existe dieta, calendário, relógio, nem despertador. Dobrando a esquina tem uma praia e já é noite. Vamos acender uma fogueira e passar a madrugada olhando estrelas e o reflexo da lua no mar, deitados na areia. A única coisa que tenho é a certeza de ir e uma mochila nas costas que pode me levar pra qualquer lugar. Quando eu for, finja que não existi. Não chore, não sintas saudades. Morrerei qualquer noite destas deitada na areia e vou me lembrar de acender novamente a fogueira, observar a lua e as estrelas. Pensar em tudo que valeu a pena. Não quero ter ninguém que fique pra sentir minha falta, não quero me culpar por ter vivido e deixado de viver da maneira que me faz feliz. É tudo assim, assim: câmera lenta, poucas cores e eu por aí. Eu vou, nunca volto, mas aqui estou.

Escrito por maisa_revilo às 17h43
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil

Meu perfil
BRASIL, Mulher

Histórico